- Então, aqui estamos... Você quer mais uma cerveja?
- Não, já to meio cheia... E bem bêbada - ela riu pra ele revelando os dentinhos brancos. Os dois do meio eram levemente separados, o que transformava a boca de Emília em um antro de perdição para ele. Nunca entendeu ao certo suas preferências secretas tão bem guardadas, como garotas de unhas pintadas de vermelho e dentes separados. O fato dele não entender não o impedia de matar e morrer por isso. Assim era Daniel: enquanto uns matavam e morriam por amor, ele matava e morria por dentes brancos e unhas vermelhas. Especialmente quando bebia muito como naquele sábado.
- A cerveja acabou. Puta merda. Não temos nada pra fazer. Acho que vou embora. - fingiu um olhar tristeza.
- Não, espera.. Me faz companhia aqui, não quero ficar sozinha enquanto eles dois ficam lá dentro... Fazendo coisas. Hahaha.
- Hahaha. - não entendia a graça, mas forçou um riso - tudo bem, eu fico.
- Você é um amor.
Voltou para junto dela no sofá buscando colar seu corpo ao dela, pequeno e delicado. O seu perfume agridoce entrava nas narinas de Daniel enviando uma mensagem ao cérebro: tente. Vai valer a pena. Foi quando sentiu um movimento estranho dentro das calças. Havia chegado a hora.
Tentou roubar um beijo, mas ela desvio o rosto. Não se dando por vencido, procurou sua boca mais adiante, mas quando ele ia lá, sempre estava em outro lugar, uma maldita perseguição se realizava ali, ficando cada vez mais tensa a medida que se deu conta de que ela não estava interessada em ir com ele pra cama. Com as mãos delicadas de garota estudante, ela separou os corpos.
A festa já havia acabado há algum tempo - o último convidado partira em sigilo quando percebeu que a cerveja havia acabado deixando uma partida de guitar hero pela metade. No sofá da casa da Maristela estava somente eles dois, Daniel e Emília, compartilhando a sombria sina da manhã que se alastrava como fogo pelo céu. Emília era bem mais nova do que qualquer garota que ele já havia ficado. E era linda, ah, como era linda: tinha cachinhos loiros e cabelo curto, pernas grossas e macias guardadas dentro de um short pequeno, um nariz finíssimo que aparentemente vinha de alguma linhagem nobre. Enquanto estavam somente os dois ali na sala de estar, Maristela, a dona da festa, transava loucamente com o seu namorado novo no quarto da mãe. Dava para se ouvir os gemidos quando o silencio se abateu na sala de estar.
Os dois ali no sofá haviam chegado a um impasse. Conversaram sobre quase tudo que é possível e aconselhável, muitas vezes um atropelando o outro no discurso empolgado sobre comunismo e literatura russa. Daniel somente observava ela transtornado. Era alguma brincadeira? Ela havia dado todos os sinais de estar interessada naquilo. Parecia que cada célula de seu corpo ansiava por ele, mas somente parecia. Como aquilo poderia acontecer? Ele se sentiu humilhado e enganado profundamente.
- Qual o problema?
- Olha, você é um cara legal, mas eu não me sinto atraída por você.
- O quê?! Como assim.. A gente ficou conversando a festa toda, porra.
- É, você é um cara legal.. Apesar de ser grosso. Não fique chateado.
- Eu fiquei ouvindo as histórias da sua família por duas horas quando podia estar dançando ou arriando com a galera. E agora isso. Puta que pariu, vê se cresce Emília.
Ela se levantou do sofá e me encarou. Parecia procurar alguma autoridade perdida, mas seu olhar revoltado não deixava. Estavam bem bêbados. Quer dizer, ao menos ele. Ela sentou-se em uma cadeira do outro lado da sala de estar e pegou cigarro na carteira. Mostrou a ele.
- É meu último. Eu ia dividir com você, mas não vou. Você foi grosso comigo.
- Não quero seu último cigarro. Eu quero é dormir com você. Gosto de você.
- Desculpe fofinho, mas isso não vai acontecer. - fofinho. Era assim que minhas tias lhe chamavam quando pequeno. Aquele olhar de superioridade e auto-suficiência havia lhe levado ao limite.
- Tudo bem, é seu direito. Você não quer dar, não tem problema. Milhares de animais estão transando agora ao redor do mundo, procriando e recriando a natureza, e você fica aí com seu narizinho arrebitado se achando glamorosa demais pra isso. Ficou me enrolando aqui a noite toda. Me fazendo de otário? Vou bater uma punheta olhando pra você.
Ela ficou em silêncio. O rapaz desabotoou a calça e começou a trabalhar. O sexo já havia ganho volume enquanto toda aquela briga se desenrolava - Daniel era um rapaz extremamente estranho - não seria problema finalizar a coisa agora, na situação onde estavam.
Emília tinha pernas realmente lindas. E uns pés que as amigas de pés 37 invejavam. Começou a observar os pés enquanto realizava o gesto repetitivo e - pasmem - achou os pés o melhor que havia nela - pé número 35 com os dedinhos enfileirados perfeitamente e seu esmalte vermelho nas pontas.
Do outro lado do apartamento, se escutava som de sexo. Na sala Emília fumava e assitia Daniel. Se ficou incrédula, não deu a perceber. E não parecia estar com nojo. Talvez quisesse provar que não era uma garota tão má. Talvez quisesse mostrar que sabia como fazer - mas não queria, não estava com saco, não naquele sábado, porra. Somente fumava e observava séria. FAP FAP FAP na sala e AH AH AH vindo dos fundos.
O olhar de Emília deixou o rapaz ainda mais louco.
Foi quando ele rolou e caiu no tapete da sala como um cachorro. No chão, foi avançando lentamente, desfazendo o espaço entre ambos. Lamberia os pés de Emília Santiago de Almeida Albuquerque, terceiro lugar na olimpíada de matemática estadual. Ela balançou o pé esquerdo suavemente quando se aproximou. Não sabendo se aquilo era um convite ou uma rejeição, Daniel pôs seu plano em ação. Beijou o pé, lambeu ele por toda a sua extensão. Milhares de lugares para se explorar ali: o calcanhar, os cinco dedinhos pequenos, o espaço entre eles, o tornozelo, o tarso, o metatarso... Deu pequenas lambidas e mordidinhas estratégicas até o momento do gozo.
Em seguida se levantou, olhou para ela com indignação - algo de “como você deixou eu fazer isso?” e se sentou no sofá observando-a. Já não precisava mais de Emília.
- Achou que ia me deixar louco por você? Fazer eu perder a cabeça por isso? Um dia você vai descobrir que esmalte e perfume caro não são melhores que isso - ergueu a palma da mão aberta para Emília em silencioso protesto. Fatigado pela pequena brincadeira e a cerveja, Daniel se deitou no sofá e adormeceu.
Quando acordou, Emília já havia ido embora. Dias depois um número estranho apareceu em seu celular. Era ela perguntando o que ele achava de pegar um cinema. Começaram a namorar alguns encontros depois.
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